sábado, 28 de dezembro de 2013

Ode ao gato ~ Pablo Neruda


Fonte: We heart it
Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.

O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.
Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o por e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Oda al gato
Pablo Neruda
Los animales fueron
imperfectos,
largos de cola, tristes
de cabeza.
Poco a poco se fueron
componiendo,
haciéndose paisaje,
adquiriendo lunares, gracia, vuelo.
El gato,
sólo el gato
apareció completo
y orgulloso:
nació completamente terminado,
camina solo y sabe lo que quiere.
El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde bigote a cola,
desde presentimiento a rata viva,
desde la noche hasta sus ojos de oro.
No hay unidad
como él,
no tienen
la luna ni la flor
tal contextura:
es una sola cosa
como el sol o el topacio,
y la elástica línea en su contorno
firme y sutil es como
la línea de la proa de una nave.
Sus ojos amarillos
dejaron una sola
ranura
para echar las monedas de la noche.
Oh pequeño
emperador sin orbe,
conquistador sin patria,
mínimo tigre de salón, nupcial
sultán del cielo
de las tejas eróticas,
el viento del amor
en la intemperie
reclamas
cuando pasas
y posas
cuatro pies delicados
en el suelo,
oliendo,
desconfiando
de todo lo terrestre,
porque todo
es inmundo
para el inmaculado pie del gato.
Oh fiera independiente
de la casa, arrogante
vestigio de la noche,
perezoso, gimnástico
y ajeno,
profundísimo gato,
policía secreta
de las habitaciones,
insignia
de un
desaparecido terciopelo,
seguramente no hay
enigma
en tu manera,
tal vez no eres misterio,
todo el mundo te sabe y perteneces
al habitante menos misterioso,
tal vez todos lo creen,
todos se creen dueños,
propietarios, tíos
de gatos, compañeros,
colegas,
discípulos o amigos
de su gato.
Yo no.
Yo no suscribo.
Yo no conozco al gato.
Todo lo sé, la vida y su archipiélago,
el mar y la ciudad incalculable,
la botánica,
el gineceo con sus extravíos,
el por y el menos de la matemática,
los embudos volcánicos del mundo,
la cáscara irreal del cocodrilo,
la bondad ignorada del bombero,
el atavismo azul del sacerdote,
pero no puedo descifrar un gato.
Mi razón resbaló en su indiferencia,
sus ojos tienen números de oro.

Pablo Neruda

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Os gatos - Baudelaire/Delfim Guimarães



Os Gatos

Os loucos de paixão, e os sábios mais prudentes,
Têm um amor igual, quando sexagenários,
Por esses animais de pupilas ardentes,
À sua imitação: friorentos, sedentários.

Devotos da ciência, amigos dos mistérios,
Procuram o silêncio, a treva, a quietação;
Por certo, eram de Érebo os ginetes funéreos,
Se a orgulhosa altivez dobram à escravidão.

Sabem tomar, sonhando, os modos imponentes
De esfinges colossais nas areias dormentes,
Num profundo dormir, num sonho peregrino;

Os fecundantes rins geram chispas elétricas,
E as pupilas a arder, em labaredas tétricas,
Têm brilhos de areal, fulgências de ouro fino!


"interpretação em verso de poesias de Carlos Baudelaire", 
por Delfim Guimarães (Lisboa, 1909) [ortografia atualizada]

Foto: acervo pessoal. Modelos: Bomboca e Kiko, da Catarina Correia :)

domingo, 8 de dezembro de 2013

O gato misterioso, Os Nefelibatas e Raul Brandão

... Mas a música morria, como um físico expira, e como a despertar-nos da rêvasserie, no telhado fronteiro um gato miava, os olhos como grandes pirilampos, acesos, fitando-nos esfingicamente.

O animal querido de Charles Baudelaire vinha avivar recordações do Poeta, os seus mios glácidos cortando a pacificação do bairro antigo: - e daí nasciam, vinham à tona, pontos de vista de bizarria, anedotas e críticas sobre o estranho autor das Flores do Mal, sobre o dawamesk, sobre Edgar Poë...

O gato entretanto parecia magnetizado por nós, e, como a rua era estreita, num salto, veio cair no telhado da nossa casa, como um agouro, como um prenúncio inadivinhado e triste. Depois saltava à varanda, e ei-lo na sala, roçando-nos as pernas, miando, como um ébrio... - Pouco depois aconchegado no divã talvez sonhasse, abrindo quando a quando os olhos lúgubres de velho mocho esfomeado...
Raul Brandão

... E a mão afagante de Raul Brandão corria-lhe o dorso, esguia e mais pálida do luar...




Trecho do opúsculo Os Nefelibatas, em que se faz a apresentação do  ambiente - ideal e cenograficamente montado - em que vivem e trabalham os escritores ligados ao Simbolismo português. 

sábado, 23 de novembro de 2013

Os meus gatos gostam de brincar com as minhas baratas ~ Adília Lopes



Autobiografia Sumária de Adília Lopes

Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas

[LOPES, 1987, em Obra, p.80]







Autobiografia Sumária de Adília Lopes 2

Não deixo a gata do rés-do-chão brincar com as minhas baratas porque acho que as
minhas baratas não gostam de brincar com ela.

[LOPES, 2000, em Obra, p.434]

Autobiografia Sumária de Adília Lopes 3

Os meus gatos já deixaram há muito tempo de brincar com as minhas baratas.
A Ofélia tem 12 anos, seis meses e sete dias. O Guizos, segundo o Dr. Morais, tem 9
anos. Entretanto gatos morreram, gatos desapareceram. Estou a escrever isto no
computador e não sei do Guizos há três dias.

[LOPES, 2000, em Obra, p. 443]


Adília Lopes é o pseudônimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, desde 1983. O nome foi criado por um amigo (cujo nome não menciona) para que ela pudesse participar de um concurso literário (Prêmio de Prosa da Associação Portuguesa de Escritores) em que o pseudônimo fazia parte do regulamento. Além de poemas, também escreveu crônicas e trabalhou como tradutora portuguesa.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O ronron do gatinho ~ Ferreira Gullar e Adriana Calcanhotto


(Ferreira Gullar e seu gato)
O ronron do gatinho
O gato é uma maquininha

que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.

Mas um motor diferente

desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.

É um motor afetivo

que bate em seu coração
por isso faz ronron
para mostrar gratidão.

No passado se dizia

que esse ronron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito,

calúnias contra o bichinho:
esse ronron em seu peito
não é doença – é carinho.


Poema de F. G. musicado por Adriana Calcanhotto

Ferreira Gullar (1930) é poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro. Abriu caminho para a "Poesia Concreta", com o livro " A Luta Corporal". Organizou e liderou o movimento literário "Neoconcreto". Nasceu em São Luís, Maranhão, no dia 10 de setembro de 1930. Iniciou seus estudos em sua cidade natal. No início da década de 60, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde participou do Centro Popular de Cultura da extinta União Nacional do Estudante. Após a edição do A-I nº5, em 1968, Ferreira Gullar é preso e exilado em Paris e depois em Buenos Aires. Em 1977, é absolvido pelo STF e retorna ao Brasil.

Há gatos brancos à janela ~ Mário Cesariny


(...)

Paro um pouco a enrolar o meu cigarro (chove)
e vejo um gato branco à janela de um prédio bastante alto
Penso que a questão é esta: a gente - certa gente - sai para a rua,
cansa-se, morre todas as manhãs sem proveito nem glória
e há gatos brancos à janela de prédios bastante altos!



Contudo e já agora penso
que os gatos são os únicos burgueses
com quem ainda é possível pactuar -
veem com tal desprezo esta sociedade capitalista!
Servem-se dela, mas do alto, desenhando-a...
Não, a probabilidade do dinheiro ainda não estradou inteiramente o gato
mas de gato para cima - nem pensar nisso é bom!
Propalam não sei que náusea, retira-se-me o estômago só de olhar para eles!

(...)

Com certa espécie de solidariedade
lembro-me de ti, Mário de Sá-Carneiro,
Poeta-gato-branco à janela de muitos prédios altos.

(...)

louvor e simplificação de Álvaro de Campos - Mário Cesariny (1923-2006)




"Pintor e poeta, Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu em Lisboa, no dia 9 de Agosto de 1923 e faleceu nessa mesma cidade, em 26 de Novembro de 2006.


Depois de uma aproximação ao neo-realismo, afastou-se do movimento. Em 1947, escreveu o poema Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (só publicado em 1953) e levou a cabo as suas primeiras experiências nas artes plásticas.

Frequentou a Academia de La Grande Chaumière, em Paris, cidade onde conheceu André Breton, em 1947. Rapidamente atraído pelas propostas do movimento surrealista francês, após o seu regresso ligou-se ao denominado “Grupo Surrealista de Lisboa”, o qual abandonou após acesa (e prolongada) polémica, para fundar outro grupo, “Os Surrealistas” (também conhecido como “Grupo Surrealista Dissidente”).

Em 1949, mostrou publicamente obras suas pela primeira vez, numa exposição colectiva. Em 1950, publica o seu primeiro livro, Corpo Visível, e participa na segunda exposição colectiva de "Os Surrealistas".

O Surrealismo marca em Cesariny o ponto de partida de um percurso artístico profundamente vivido ao longo da segunda metade do século XX, tanto na escrita como nas artes plásticas." 

Nem servo de Deus, nem do Diabo ~ Lygia Fagundes Telles




“… ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro; o gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus, nem servo do Diabo.” 

(Lygia Fagundes Telles, em “A Disciplina do Amor”)



"Lygia Fagundes Telles (1923) é escritora brasileira. Romancista e contista, é membro da Academia Paulista de Letras, da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências de Lisboa. O estilo de Lygia Fagundes Telles é caracterizado por representar o universo urbano e por explorar de forma intimista a psicologia feminina.

Lygia Fagundes Telles (1923) nasceu em São Paulo, no dia 19 de abril de 1923.  Seu interesse por literatura começou na adolescência. Com 15 anos publicou seu primeiro livro, "Porão e Sobrado". Formou-se em Direito e em Educação Física na Universidade de São Paulo; porém, seu interesse maior era mesmo a literatura."

domingo, 10 de novembro de 2013

A eternidade nos olhos dos gatos ~ "O relógio", poema em prosa de Baudelaire

O RELÓGIO


Os chineses veem as horas que são nos olhos dos gatos.

Um dia, um missionário, passeando por um subúrbio de Nanquim, apercebeu-se que tinha esquecido do relógio, e perguntou a um pequenito que horas eram.

O garoto do Celeste Império hesitou primeiro; depois, mudando de parecer, respondeu: «Eu já lhe digo.» Pouco depois reapareceu trazendo nos braços um gato muito gordo, e fitando-o, como sói dizer-se, no alvo dos olhos, afirmou sem hesitar: «Ainda não é meio-dia.» O que era verdade.

Por mim, se me debruço sobre a linda Féline, a tão bem batizada, que é ao mesmo tempo a honra do seu sexo, o orgulho do meu coração e o perfume do meu espírito, quer seja de noite, quer seja de dia, em plena luz ou na sombra opaca, no fundo dos seus olhos adoráveis eu vejo sempre distintamente as horas, sempre a mesma hora, uma hora vasta, solene, grande como o espaço, sem divisão em minutos ou segundos - uma hora imóvel que os relógios não marcam, e, no entanto, leve como um suspiro, rápida como um golpe de vista.

E se qualquer importuno me viesse perturbar enquanto o meu olhar repousa sobre esse delicioso mostrador, se qualquer Gênio malévolo e intolerante, qualquer Demônio de contratempo me viesse dizer: «Que estás olhando com tanto interesse? Acaso lá vês as horas, mortal pródigo e ocioso?», e eu responderia sem hesitar: «Sim, vejo as horas; agora é a Eternidade!»

Não lhe parece, minha senhora, que lhe deixo aqui um madrigal inteiramente digno de apreço, e tão pomposo como vós mesma? E, em boa verdade, tive tanto prazer em abordar esta pretensiosa galantaria, que nada vos peço em troca.

(tradução de António Pinheiro Guimarães adaptada ao Novo Acordo Ortográfico e à acentuação brasileira [paradoxo]).

- Texto de partida: 

L'HORLOGE

Les Chinois voient l'heure dans l'oeil des chats.

Un jour un missionnaire, se promenant dans la banlieue de Nankin, s'aperçut qu'il avait oublié sa montre, et demanda à un petit garçon quelle heure il était.

Le gamin du céleste Empire hésita d'abord; puis, se ravisant, il répondit: "Je vais vous le dire." Peu d'instants après, il reparut, tenant dans ses bras un fort gros chat, et le regardant, comme on dit, dans le blanc des yeux, il affirma sans hésiter: "Il n'est pas encore tout à fait midi." Ce qui était vrai.

Pour moi, si je me penche vers la belle Féline, la si bien nommée, qui est à la fois l'honneur de son sexe, l'orgueil de mon coeur et le parfum de mon esprit, que ce soit la nuit, que ce soit le jour, dans la pleine lumière ou dans l'ombre opaque, au fond de ses yeux adorables je vois toujours l'heure distinctement, toujours la même, une heure vaste, solennelle, grande comme l'espace, sans divisions de minutes ni de secondes, - une heure immobile qui n'est pas marquée sur les horloges, et cependant légère comme un soupir, rapide comme un coup d'oeil.

Et si quelque importun venait me déranger pendant que mon regard repose sur ce délicieux cadran, si quelque Génie malhonnête et intolérant, quelque Démon du contretemps venait me dire: "Que regardes-tu là avec tant de soin? Que cherches-tu dans les yeux de cet être? Y vois-tu l'heure, mortel prodigue et fainéant?" je répondrais sans hésiter: "Oui, je vois l'heure; il est l'Eternité!"

N'est-ce pas, madame, que voici un madrigal vraiment méritoire, et aussi emphatique que vous-même? En vérité, j'ai eu tant de plaisir à broder cette prétentieuse galanterie, que je ne vous demanderai rien en échange. 


(Foto: acervo pessoal. Modelo: Bijou, minha dona :D)

"Nascido em Paris no dia nove de abril de 1821, Charles-Pierre Baudelaire  foi um poeta e teórico das artes em geral. Na opinião de especialistas e críticos de arte, foi o criador da tradição moderna na poesia junto a Walt Whitman. A influência de sua obra ultrapassou sua existência, uma vez que Baudelaire chegou a ser citado por artistas do século XIX e XX."