quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Há gatos brancos à janela ~ Mário Cesariny


(...)

Paro um pouco a enrolar o meu cigarro (chove)
e vejo um gato branco à janela de um prédio bastante alto
Penso que a questão é esta: a gente - certa gente - sai para a rua,
cansa-se, morre todas as manhãs sem proveito nem glória
e há gatos brancos à janela de prédios bastante altos!



Contudo e já agora penso
que os gatos são os únicos burgueses
com quem ainda é possível pactuar -
veem com tal desprezo esta sociedade capitalista!
Servem-se dela, mas do alto, desenhando-a...
Não, a probabilidade do dinheiro ainda não estradou inteiramente o gato
mas de gato para cima - nem pensar nisso é bom!
Propalam não sei que náusea, retira-se-me o estômago só de olhar para eles!

(...)

Com certa espécie de solidariedade
lembro-me de ti, Mário de Sá-Carneiro,
Poeta-gato-branco à janela de muitos prédios altos.

(...)

louvor e simplificação de Álvaro de Campos - Mário Cesariny (1923-2006)




"Pintor e poeta, Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu em Lisboa, no dia 9 de Agosto de 1923 e faleceu nessa mesma cidade, em 26 de Novembro de 2006.


Depois de uma aproximação ao neo-realismo, afastou-se do movimento. Em 1947, escreveu o poema Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (só publicado em 1953) e levou a cabo as suas primeiras experiências nas artes plásticas.

Frequentou a Academia de La Grande Chaumière, em Paris, cidade onde conheceu André Breton, em 1947. Rapidamente atraído pelas propostas do movimento surrealista francês, após o seu regresso ligou-se ao denominado “Grupo Surrealista de Lisboa”, o qual abandonou após acesa (e prolongada) polémica, para fundar outro grupo, “Os Surrealistas” (também conhecido como “Grupo Surrealista Dissidente”).

Em 1949, mostrou publicamente obras suas pela primeira vez, numa exposição colectiva. Em 1950, publica o seu primeiro livro, Corpo Visível, e participa na segunda exposição colectiva de "Os Surrealistas".

O Surrealismo marca em Cesariny o ponto de partida de um percurso artístico profundamente vivido ao longo da segunda metade do século XX, tanto na escrita como nas artes plásticas." 

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