O RELÓGIO
Os chineses veem as horas que são nos olhos dos gatos.
Um dia, um missionário, passeando por um subúrbio de Nanquim, apercebeu-se que tinha esquecido do relógio, e perguntou a um pequenito que horas eram.
O garoto do Celeste Império hesitou primeiro; depois, mudando de parecer, respondeu: «Eu já lhe digo.» Pouco depois reapareceu trazendo nos braços um gato muito gordo, e fitando-o, como sói dizer-se, no alvo dos olhos, afirmou sem hesitar: «Ainda não é meio-dia.» O que era verdade.
Por mim, se me debruço sobre a linda Féline, a tão bem batizada, que é ao mesmo tempo a honra do seu sexo, o orgulho do meu coração e o perfume do meu espírito, quer seja de noite, quer seja de dia, em plena luz ou na sombra opaca, no fundo dos seus olhos adoráveis eu vejo sempre distintamente as horas, sempre a mesma hora, uma hora vasta, solene, grande como o espaço, sem divisão em minutos ou segundos - uma hora imóvel que os relógios não marcam, e, no entanto, leve como um suspiro, rápida como um golpe de vista.
E se qualquer importuno me viesse perturbar enquanto o meu olhar repousa sobre esse delicioso mostrador, se qualquer Gênio malévolo e intolerante, qualquer Demônio de contratempo me viesse dizer: «Que estás olhando com tanto interesse? Acaso lá vês as horas, mortal pródigo e ocioso?», e eu responderia sem hesitar: «Sim, vejo as horas; agora é a Eternidade!»
Não lhe parece, minha senhora, que lhe deixo aqui um madrigal inteiramente digno de apreço, e tão pomposo como vós mesma? E, em boa verdade, tive tanto prazer em abordar esta pretensiosa galantaria, que nada vos peço em troca.
(tradução de António Pinheiro Guimarães adaptada ao Novo Acordo Ortográfico e à acentuação brasileira [paradoxo]).
- Texto de partida:
L'HORLOGE
Les Chinois voient l'heure dans l'oeil des chats.
Un jour un missionnaire, se promenant dans la banlieue de Nankin, s'aperçut qu'il avait oublié sa montre, et demanda à un petit garçon quelle heure il était.
Le gamin du céleste Empire hésita d'abord; puis, se ravisant, il répondit: "Je vais vous le dire." Peu d'instants après, il reparut, tenant dans ses bras un fort gros chat, et le regardant, comme on dit, dans le blanc des yeux, il affirma sans hésiter: "Il n'est pas encore tout à fait midi." Ce qui était vrai.
Pour moi, si je me penche vers la belle Féline, la si bien nommée, qui est à la fois l'honneur de son sexe, l'orgueil de mon coeur et le parfum de mon esprit, que ce soit la nuit, que ce soit le jour, dans la pleine lumière ou dans l'ombre opaque, au fond de ses yeux adorables je vois toujours l'heure distinctement, toujours la même, une heure vaste, solennelle, grande comme l'espace, sans divisions de minutes ni de secondes, - une heure immobile qui n'est pas marquée sur les horloges, et cependant légère comme un soupir, rapide comme un coup d'oeil.
Et si quelque importun venait me déranger pendant que mon regard repose sur ce délicieux cadran, si quelque Génie malhonnête et intolérant, quelque Démon du contretemps venait me dire: "Que regardes-tu là avec tant de soin? Que cherches-tu dans les yeux de cet être? Y vois-tu l'heure, mortel prodigue et fainéant?" je répondrais sans hésiter: "Oui, je vois l'heure; il est l'Eternité!"
N'est-ce pas, madame, que voici un madrigal vraiment méritoire, et aussi emphatique que vous-même? En vérité, j'ai eu tant de plaisir à broder cette prétentieuse galanterie, que je ne vous demanderai rien en échange.
(Foto: acervo pessoal. Modelo: Bijou, minha dona :D)
"Nascido em Paris no dia nove de abril de 1821, Charles-Pierre Baudelaire foi um poeta e teórico das artes em geral. Na opinião de especialistas e críticos de arte, foi o criador da tradição moderna na poesia junto a Walt Whitman. A influência de sua obra ultrapassou sua existência, uma vez que Baudelaire chegou a ser citado por artistas do século XIX e XX."