domingo, 8 de dezembro de 2013

O gato misterioso, Os Nefelibatas e Raul Brandão

... Mas a música morria, como um físico expira, e como a despertar-nos da rêvasserie, no telhado fronteiro um gato miava, os olhos como grandes pirilampos, acesos, fitando-nos esfingicamente.

O animal querido de Charles Baudelaire vinha avivar recordações do Poeta, os seus mios glácidos cortando a pacificação do bairro antigo: - e daí nasciam, vinham à tona, pontos de vista de bizarria, anedotas e críticas sobre o estranho autor das Flores do Mal, sobre o dawamesk, sobre Edgar Poë...

O gato entretanto parecia magnetizado por nós, e, como a rua era estreita, num salto, veio cair no telhado da nossa casa, como um agouro, como um prenúncio inadivinhado e triste. Depois saltava à varanda, e ei-lo na sala, roçando-nos as pernas, miando, como um ébrio... - Pouco depois aconchegado no divã talvez sonhasse, abrindo quando a quando os olhos lúgubres de velho mocho esfomeado...
Raul Brandão

... E a mão afagante de Raul Brandão corria-lhe o dorso, esguia e mais pálida do luar...




Trecho do opúsculo Os Nefelibatas, em que se faz a apresentação do  ambiente - ideal e cenograficamente montado - em que vivem e trabalham os escritores ligados ao Simbolismo português. 

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